Quando eu tinha vinte e três anos, tomei a decisão mais séria da minha vida: ser pai de família. Não havia heroísmo nisso, havia frio na barriga. Eu não vim de família rica, não tinha patrimônio, não tinha rede de apoio. Tinha um sonho, que era constituir minha família, ter filhos, ser o pai e o provedor, vê-los crescer e dar a eles uma vida digna na qual pudessem se tornar pessoas muito melhores do que eu jamais seria. E tinha a convicção de que, com trabalho e o apoio dos meus, esse sonho poderia se cumprir.

Esse sonho virou propósito. E o propósito me fazia pular da cama todos os dias, como um leão que sai para caçar e alimentar a prole, com garra e com fé. Trabalhei dia e noite, noite e dia. Por anos. Olhando para trás, depois de mais de quatro décadas, posso dizer com total convicção: o propósito nos move. Ele é capaz de nos fazer melhores, de nos manter de pé, de nos empurrar para a frente um dia após o outro.

Mas há algo que aprendi no caminho, e é sobre isso que quero escrever. Não como um contraponto ao poder do propósito, mas como um complemento que considero indispensável. O propósito, sozinho, não basta para sustentar anos e anos de luta. Pelo menos não tem bastado. E, pelo que observo, cada vez menos.

O destino é longe demais para ser o único combustível

Nossos sonhos e propósitos de vida estão quase sempre distantes. Estão lá na frente, no horizonte. Nas empresas, isso tem um nome: chama-se Visão, aquilo que traduz a ambição e o sonho do acionista no longo prazo, o ponto de chegada que orienta as estratégias de curto, médio e longo prazo. Uma boa Visão diz onde se quer chegar no futuro, e é a partir dela que se orienta o que fazer hoje.

Na vida pessoal não é diferente. Ter um propósito é o que nos dá direção, o norte, o que nos diz o que fazer no presente para alcançar o que queremos lá adiante. E chegar lá, realizar o sonho, cumprir o propósito, é uma recompensa sensacional. É o coroamento de um longo período de luta, de sacrifício, de restrição. É uma recompensa justa e merecida. É o que faz tudo fazer sentido e ter valido a pena.

O problema é simples de enunciar e difícil de viver: o longo prazo demora. O destino está longe, às vezes a décadas de distância. E nenhum ser humano atravessa décadas de esforço alimentado apenas pela imagem de uma recompensa que talvez só venha no fim. A chama do propósito é poderosa, mas precisa de lenha diária. Sem lenha, qualquer fogueira se apaga, por mais nobre que seja a razão pela qual foi acesa.

Foi exatamente isso que a pesquisadora de Harvard Teresa Amabile descobriu ao analisar quase 12 mil registros diários de 238 profissionais ao longo de meses de trabalho. O que mais sustentava o ânimo, o engajamento e o desempenho das pessoas não eram os grandes triunfos, que são raros, mas a percepção de pequenos avanços no dia a dia. Ela chamou isso de princípio do progresso, e a expressão que usou para descrever esses avanços é certeira: small wins (pequenas vitórias). Eram elas, e não as conquistas monumentais, que mantinham as pessoas inteiras para o trabalho do dia seguinte.

Eu não precisei de pesquisa para saber disso, pois a vida me ensinou.

A lenha que me manteve de pé

Naqueles anos em que eu trabalhava dezesseis, dezoito, vinte horas por dia, e muitas vezes virava a noite, o propósito estava sempre lá, ao fundo, firme. Mas o que efetivamente me sustentava, o que me dava força para encarar mais um dia, eram coisas pequenas. Pequenas no tamanho, enormes no efeito!

Era ver, pela manhã, um sorriso no rosto de meus filhos. Era um abraço apertado. Era o almoço de domingo com a família reunida. Era o reconhecimento, em poucas palavras, da minha esposa e dos meus filhos pelo esforço que eu fazia ou a alegria de poder finalmente comprar aquele presente de Natal simples que um dos meus filhos tanto queria. E, mesmo no trabalho, era um elogio do meu chefe ou o simples reconhecimento de um trabalho bem feito.

Cada um desses gestos funcionava como uma confirmação. Era como se a vida me dissesse: “É isso aí. Força. Vai em frente. Você está no caminho certo e está indo bem. Força guerreiro!” E lá ia eu, renovado, para mais uma batalha em busca do meu sonho.

Lembro de um episódio em particular. Um dos meus filhos queria um brinquedo que estava acima do que eu podia gastar naquele momento. Mesmo assim, eu disse: “Papai vai comprar para você.” E ele me respondeu, na hora: “Não, papai. Não precisa. Você já trabalha muito. Não precisa.”

Os meus três filhos me disseram isso, em momentos diferentes, ao longo daqueles anos. E eu lhes garanto que não existe contracheque, bônus ou promoção que se compare à força que aquela frase, dita por uma criança, me dava. Em poucas palavras, vindas de quem eu mais amava, eu recebia a maior das recompensas. Não pelo valor material, mas pela confirmação de que o sacrifício estava sendo visto, compreendido e, à sua maneira, genuína e carinhosa, retribuído.

E isso não ficou no passado. Hoje, mais de quatro décadas depois, minhas pequenas recompensas continuam chegando todas as manhãs. Meu filho mais novo acorda cedo e vem me “acordar”: chega bem pertinho, grita um “buuu!”, e eu, que normalmente já estou acordado, abro os olhos fingindo susto só para curtir aquele sorriso maravilhoso que vem em seguida. É assim que meu dia começa, com um abraço apertado do meu caçulinha e com minha esposa ao lado, sempre com uma palavra de incentivo e apoio. Essa é a lenha de hoje. Porque o propósito não envelhece, ele se renova: ainda trabalho muito, agora movido pelo sonho de ser um bom pai, um bom exemplo, e continuar na luta, para deixar um legado de valor para os meus filhos, pelo tempo que Deus me permitir. E, como já não sou jovem, confesso que tenho pressa.

É isso que chamo aqui de Pequenas Recompensas. São gestos miúdos, palavras curtas, sinais de reconhecimento, em geral vindos das pessoas que amamos, que admiramos ou que têm alguma influência sobre nós, que produzem um efeito desproporcional ao seu tamanho. Elas nos dão força, nos renovam, iluminam o caminho. Nos alimentam, renovam nossa fé e confirmam que estamos indo na direção certa. Sem elas, falta a confirmação. E, sem confirmação, mais cedo ou mais tarde, desistimos, porque o longo prazo demora demais para chegar.

Um mundo que desaprendeu de esperar

Disse no início que o propósito, sozinho, tem bastado cada vez menos. Quero explicar o que vejo.

O mundo está mudando. Saímos de uma cultura que se construía com força e fé voltadas para o longo prazo e entramos numa cultura do imediato, do hoje, do agora, do já. As redes sociais têm grande responsabilidade nisso. Nelas, as pessoas mentem muito sobre suas próprias vidas. Todos sabem disso e, ainda assim, continuam acreditando e continuam mentindo. O resultado é uma vitrine na qual a vida parece ter de ser confortável e maravilhosa o tempo todo. E quem está na labuta, passando por dificuldades, sacrifícios e restrições em nome de um sonho, olha para essa vitrine e se sente atrasado, errado, perdedor.

Daí nasce uma geração que quer começar a carreira já ganhando muito, que quer enriquecer na adolescência, que quer ser o mais famoso hoje. Não querem esperar. Querem a grande recompensa agora, já. E o ponto não é condenar o desejo, mas constatar uma aritmética inescapável: a grande recompensa imediata até acontecerá para alguns, mas não para a maioria. Nunca foi para a maioria.

Há décadas, num experimento que ficou famoso, o psicólogo Walter Mischel pôs crianças diante de uma escolha: comer um doce agora, ou esperar alguns minutos sozinhas para ganhar dois (“Teste do Marshmallow”). As conclusões de longo prazo daquele estudo são hoje debatidas e relativizadas pela ciência, e por isso não as trato como verdade definitiva. Mas a imagem que ele deixou continua valiosa: existe uma diferença real entre quem consegue tolerar a espera por algo maior e quem não consegue. E o nosso tempo, com seus estímulos infinitos e suas gratificações instantâneas, está tornando essa espera cada vez mais difícil de suportar.

O risco é claro. Se as pessoas não conseguem mais sustentar o esforço de longo prazo, e se a grande recompensa imediata não chegará para a maioria, corremos o perigo de formar um mundo de gente frustrada, desanimada e sem forças para lutar, porque deixou de existir um propósito de longo prazo a ser perseguido. E é justamente aqui que as Pequenas Recompensas deixam de ser um detalhe sentimental e se revelam o que de fato são: o mecanismo que torna o longo prazo humanamente suportável.

Os dois lados da mesma dádiva

Quero terminar este artigo com a parte que, para mim, é a mais importante, e que só aprendi com o tempo.

As Pequenas Recompensas têm dois lados. Há momentos da vida em que somos nós quem precisa delas: estamos na luta, exaustos, e uma palavra de reconhecimento nos coloca de pé de novo. Mas há outros momentos, e quem viveu o suficiente passa por eles, em que estamos do outro lado. Em que somos nós quem tem o poder de oferecer a Pequena Recompensa a alguém que está lutando e a merece.

Esse poder está em toda parte e quase sempre passa despercebido. Está no reconhecimento ao filho. Está no elogio sincero ao colega que se esforçou. Está na palavra de apoio ao funcionário ou ao amigo que carrega um fardo pesado em silêncio. Está numa frase curta, dita na hora certa, que para nós custa segundos e para o outro pode valer semanas de força. Reconhecer o esforço de quem luta não é gentileza opcional; é, muitas vezes, a lenha que mantém aceso o fogo de alguém que estava prestes a desistir.

Por isso, o convite que faço com este artigo é duplo.

Valorize as Pequenas Recompensas que você recebe. Não espere apenas pela grande conquista lá na frente, que virá, mas demora. Aprenda a enxergar, a colher e a se nutrir dos pequenos sinais ao longo do caminho, porque são eles que vão te levar até o destino.

E não se esqueça do outro lado. Repare em quem, ao seu redor, está na luta. Você talvez não tenha como mudar a vida dessa pessoa de uma só vez, mas tem, todos os dias, o poder de oferecer a ela uma Pequena Recompensa. Um gesto. Uma palavra. Um reconhecimento.

É barato. É rápido. E, como aprendi com três crianças que me diziam que eu não precisava comprar o brinquedo, pode ser a coisa mais valiosa que alguém poderia receber naquele dia.